segunda-feira, 7 de maio de 2018

Uma vira-lata

(Releitura do texto Clarice Lispector - atividade da aula produção textual - Profª Clarissa Feder)


Era uma vira-lata, bem cuidada, quase uma madame, mas seu pêlo escuro a denunciava. Das tetas mal saiu e foi para cozinha ajudar no que podia e não devia atrapalhar, afinal era filhote da vagabundagem.
O segredo era manter a invisibilidade para os Humanos, ouvir antes de ser desejado, lamber antes da sujeira, olhar sem levantar a cabeça
A invisibilidade só acabou diante da adolescência, a atenção foi para as curvas maduras. E no calor do fogão e na organização da dispensa o Humano descobriu a posse, um brinquedo vivo para aguçar a imaginação e a vira-lata sem reação alguma até o Humano acabar sua degustação.
O escândalo foi jogado, como águas nas escadarias da Igreja, do parque Panorama até o alto do Papagaio, uma vira-lata, está emprenhada de um Humano!
Que “auê” : - Como?! Um humano engravidou alguém assim! Mas acho que a culpa foi dela! Toda cadela escura tem o quadril que pede isso!
De tanta agitação, a melhor atitude foi encontrada! Escorraçar na sarjeta, com seus panos de bunda a maldita vira-lata, alimentos podres atirados para mostrar a indignação daquela gestação e paus jogados para dizer a dor da família que foi tão insultada.
E ali podia padecer e aceitar o destino de ter um fim arrebentada. Mas brotou uma força inesperada e pulou cambaleando a cerca. Com dor no corpo, no pensamento e vendo o rosto do ódio com todo o desespero.
Num casebre, nasce o fruto de um defloramento e a força vital que precisava para lutar, Taiana era só sua.
E sem lugar na Feira de Santana, foi procurar sobrevivência para sua filhote e sua velha mãe.
Chegada a terra da garoa, o feio se tornará bonito, o frio se tornará quente.
De cozinha já entendia
Podia se dizer que nasceu para isso!
De casebre com palha a cantinho com colchão, a vida ficou mais vivida!
Seu dom da cozinha era formidável, não entendia um símbolo sequer do alfabeto, mas todos os pratos estavam preparados sem sequer um defeito.
E numa tarde de primavera, encontra outro vira-lata para seu coração aconchegar…
De um cantinho do colchão, para um lar. Alimentava seu coração, sua mãe e sua Taiana e a surpresa vem de repente:
-Prenha? De novo?!
Mas desta vez não do medo, caos ou tormento. Era semente de um casamento, o amor arrebentava o peito e jorrava até nos cimentos. De tudo fez: de almofada branquinha e até orgulho da barriguinha.
Este devia ter sido o final... mas o não era destino! O peso do fruto despertou todas as mazelas. Mesmo sendo sugada pela sua amada, continuou nas cozinhas. Mesmo vendo Humanos de jalecos brancos sempre, continuou sua batalha. E seu prematuro amor chegou mesmo com toda a sofrência.
Podia ser séculos, décadas ou anos mas a alegria de uma nova vida durou apenas trinta meses e a vira-lata da cozinha, que correu do calor da Bahia para a terra da  garoa desconhecida vê o final da linha…
Na maca de um hospital e por erro de um jaleco branco, sente sua alma arrancada.

E ninguém ao menos argumentou com Deus, era apenas uma Conceição.


(Obrigada por está inspiração Clarissa e Clarice! Sou uma nova pessoa)

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