(Releitura do texto Clarice
Lispector - atividade da aula produção textual - Profª Clarissa Feder)
Era uma vira-lata, bem
cuidada, quase uma madame, mas seu pêlo escuro a denunciava. Das tetas mal saiu
e foi para cozinha ajudar no que podia e não devia atrapalhar, afinal era
filhote da vagabundagem.
O segredo era manter a
invisibilidade para os Humanos, ouvir antes de ser desejado, lamber antes da
sujeira, olhar sem levantar a cabeça
A invisibilidade só acabou
diante da adolescência, a atenção foi para as curvas maduras. E no calor do
fogão e na organização da dispensa o Humano descobriu a posse, um brinquedo
vivo para aguçar a imaginação e a vira-lata sem reação alguma até o Humano
acabar sua degustação.
O escândalo foi jogado, como
águas nas escadarias da Igreja, do parque Panorama até o alto do Papagaio, uma
vira-lata, está emprenhada de um Humano!
Que “auê” : - Como?! Um humano
engravidou alguém assim! Mas acho que a culpa foi dela! Toda cadela escura tem
o quadril que pede isso!
De tanta agitação, a melhor
atitude foi encontrada! Escorraçar na sarjeta, com seus panos de bunda a
maldita vira-lata, alimentos podres atirados para mostrar a indignação daquela
gestação e paus jogados para dizer a dor da família que foi tão insultada.
E ali podia padecer e aceitar
o destino de ter um fim arrebentada. Mas brotou uma força inesperada e pulou
cambaleando a cerca. Com dor no corpo, no pensamento e vendo o rosto do ódio
com todo o desespero.
Num casebre, nasce o fruto de
um defloramento e a força vital que precisava para lutar, Taiana era só sua.
E sem lugar na Feira de
Santana, foi procurar sobrevivência para sua filhote e sua velha mãe.
Chegada a terra da garoa, o
feio se tornará bonito, o frio se tornará quente.
De cozinha já entendia
Podia se dizer que nasceu para
isso!
De casebre com palha a
cantinho com colchão, a vida ficou mais vivida!
Seu dom da cozinha era
formidável, não entendia um símbolo sequer do alfabeto, mas todos os pratos
estavam preparados sem sequer um defeito.
E numa tarde de primavera,
encontra outro vira-lata para seu coração aconchegar…
De um cantinho do colchão,
para um lar. Alimentava seu coração, sua mãe e sua Taiana e a surpresa vem de
repente:
-Prenha? De novo?!
Mas desta vez não do medo,
caos ou tormento. Era semente de um casamento, o amor arrebentava o peito e
jorrava até nos cimentos. De tudo fez: de almofada branquinha e até orgulho da
barriguinha.
Este devia ter sido o final...
mas o não era destino! O peso do fruto despertou todas as mazelas. Mesmo sendo
sugada pela sua amada, continuou nas cozinhas. Mesmo vendo Humanos de jalecos
brancos sempre, continuou sua batalha. E seu prematuro amor chegou mesmo com
toda a sofrência.
Podia ser séculos, décadas ou
anos mas a alegria de uma nova vida durou apenas trinta meses e a vira-lata da
cozinha, que correu do calor da Bahia para a terra da garoa desconhecida
vê o final da linha…
Na maca de um hospital e por
erro de um jaleco branco, sente sua alma arrancada.
E ninguém ao menos
argumentou com Deus, era apenas uma Conceição.
(Obrigada por está
inspiração Clarissa e Clarice! Sou uma nova pessoa)

Nenhum comentário:
Postar um comentário